E lá vamos nós para um dos clássicos da literatura mundial, escrito em 1847 por Emily Brontë, que ainda é super atual. O mais legal dessa obra é analisar o contexto histórico da época e como ela quebrou paradigmas. O livro foi publicado com um pseudônimo masculino para evitar o caos (poucas mulheres se aventuravam por esse caminho), e mesmo assim recebeu duríssimas críticas. Foi considerado polêmico e imoral.

Vivendo em uma Inglaterra vitoriana do século 19, Brontë era uma mulher recatada e tímida, criada em um ambiente religioso sem nenhuma vida amorosa. Não se sabe como ela conseguiu tocar tão fundo a essência do amor e do ódio. A profundidade da vingança e como ela afeta nossas vidas. Seus personagens são diferentes de tudo que já se tinha visto.

Cathy é uma garota mimada, impulsiva e intensa, que não gosta de seguir regras. Pode ser considerada a frente do seu tempo, pois não abaixa a cabeça para os homens. Ao contrário, os enfrenta com personalidade. Mas também é sentimental e carrega fortes mudanças de humor, principalmente, tomadas pelo ciúme.

Heathcliff não fica para trás, um eterno apaixonado atormentado. Ele vê na vingança sua forma de sobreviver ao caos que se tornou sua vida desde a infância. Sua alma pesada não permite ele se entregar apenas ao amor, sempre cultivando junto ódio e rancor.

“Não posso viver sem a minha vida. Não posso viver sem a minha alma”. (Heathcliff)

O livro é narrado a maior parte por uma criada chamada Nelly Dean, personagem envolvida com as duas famílias que protagonizam o romance: os Earnshaw e os Linton. O pai de Cathy chega um dia em casa com um menino que encontrou passando fome na estrada e começa a tratá-lo como filho, para o desgosto de sua esposa, do seu primogênito e da comunidade do vilarejo onde moram. Parece que só Catherine aprova a bondade do pai. Eles se tornam grandes amigos e passam toda a infância e adolescência juntos, correndo e brincando sem regras.

“Minhas grandes tristezas neste mundo, têm sido as tristezas de Heathcliff: ele é a minha finalidade de viver. Se tudo mais perecesse e ele ficasse, isto bastaria para que eu continuasse a viver”. (Cathy)

Com a morte dos pais, Hindley já casado assume a casa e espezinha o irmão adotado, tornando-o quase que um criado. Já totalmente apaixonada, Cathy continua ao lado de Heathcliff por um tempo, mas acredita que não terá futuro se escolhê-lo. Heathcliff a ouve dizer que não se casaria com ele, mesmo reconhecendo o amor que sentia, optando talvez por Edgar Linton, o vizinho rico, educado e de modos refinados.

Com o coração partido pela conversa que ouviu, ele foge de casa sem dizer nada a ninguém e passa três anos fora. Catherine sofre por causa dessa ausência, mas por considerar a união entre os dois impossível e sem ter notícias do amado, aceita se casar com Edgar. Ao voltar, Heathcliff é outra pessoa, rico, ainda mais petulante e com desejo de vingar-se de todos que atrapalharam sua vida.

“Meu amor por Linton é como a folhagem de um bosque: o tempo o transformará, tenho a certeza, da mesma forma que o inverno transforma o arvoredo. O meu amor por Heathcliff lembra as rochas eternas: proporciona uma alegria pouco visível, mas é necessário. Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, mas sempre, no meu pensamento; não como uma fonte de satisfação, que eu também não sou para mim mesma, mas como eu própria”. (Cathy)

A vingança começa com seu irmão Hindley, que, após ficar viúvo, abandona a educação do filho e passa a jogar e a beber morbidamente. Perde no jogo, se endivida, e Heathcliff acaba ficando com sua propriedade e todos os seus bens. Nos seus planos também estavam casar-se com Isabella Linton, irmã de Edgar, só por capricho. Catherine fica doida com a volta dele e passa a ficar instável, acabando morrendo por complicações na gravidez. Ela deixa uma herdeira que também passa a ser alvo do atormentado. Ele se esforça para levar sua vingança até a próxima geração, vivendo uma vida rodeada pelo fantasma de Catherine.

“Se olho para essas lajes, vejo nelas gravadas as suas feições.Em cada nuvem, em cada árvore, na escuridão da noite, refletida de dia em cada objeto, por toda a parte eu vejo a tua imagem. Nos rostos mais vulgares dos homens e mulheres, até as minhas feições me enganam com a semelhança. O mundo inteiro é uma terrível testemunha de que um dia ela realmente existiu, e eu a perdi para sempre”. (Heathcliff)

Olha, tenho que dizer que Heathcliff e Catherine são dois grandes anti-heróis. Cheios de defeitos e muitas vezes cruéis, mas é impossível não se apaixonar por eles. A obra escancara que todos possuímos o lado bom e mal, o que retrata a essência humana.

Nem mesmo o egoísmo e maldade dos personagens principais acabam por separá-los, e, no final, nem mesmo a morte pode. Heathcliff e Catherine deixaram seus próprios interesses os destruírem e separarem, mas mesmo assim, continuaram se amando.

Trilha sonora para embalar a leitura

Essa foi criada em 1978, especialmente para o casal.

Wuthering Heights (Kate Bush)

Oh it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine alot, I find the lot
Falls through without you
I’m coming back love, cruel Heathcliff
My one dream, my only master

E se virasse filme

Adaptação para o cinema desse clássico é o que não falta. A mais famosa é a de 1939, estrelando Laurence Olivier e Merle Oberon, seguida da de 1992, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. A minha preferida é com Tom Hardy, de 2009 (uma série de TV).

NOTA: 5